O Coronavírus

Os coronavírus devem o seu nome à aparência de coroa solar (corona = coroa, em Português). São vírus com invólucro de dupla camada lipídica (gordura) e glicoproteínas que protegem o seu interior que contém a informação genética, o RNA (semelhante ao DNA). São a 2ª causa mais frequente de resfriado comum (constipação). Isto pode traduzir ausência de imunidade cruzada, ou seja, se houve uma infecção prévia por um outro tipo de coronavírus, provavelmente não haverá para o novo SARS-COV-2.

São vírus de tamanho médio, 0,08μm a 0,13μm (1mm corresponde a 1000μm), portanto, mais pequenos que a milésima parte do milímetro! Comparativamente, se você fosse uma célula, o vírus seria um sinal ou uma migalha.

Fig. 1 – Representação do coronavírus.

O SARS-COV-2, responsável pela doença COVID19, semelhante aos demais coronavírus, faz a sua transmissão de pessoa para pessoa por via aérea dentro de partículas respiratórias de tamanho superior a 5μm (0,005mm), contacto com secreções infecciosas depositadas em superfícies e depois levadas à boca, nariz e olhos, ou através de aerossóis libertados em procedimentos terapêuticos, como na Medicina Dentária, otorrinolaringologia, gastroenterologia… Dada a complexidade do vírus, temos armas para lutar contra ele! Detergentes e desinfectantes. Afastamento social e equipamentos de protecção individual.
Porque nos pedem para lavar tanto as mãos? Porque, se se recordam, o vírus tem uma “capa” de gordura. Que melhor para a gordura do que um detergente?
As soluções hidro-alcoólicas ou em gel também parecem ser eficazes, se aplicadas, pelo menos durante 30 segundos e deixadas a secar ao ar.
Ainda não é clara a viabilidade do vírus nas diversas superfícies ao longo do tempo, mas um estudo recente (17 de Março de 2020) mostrou maior viabilidade em aço inoxidável (48h) e, principalmente, plástico (72h).

Fig. 2 – Viabilidade dos coronavírus em aerossóis, cobre, cartão, aço inoxidável e plástico.

Aconselha-se a lavagem prévia das superfícies com detergente e água antes da desinfecção com álcool, derivados ou soluções à base de lixívia, uma vez que a sujidade pode inactivar as soluções de desinfecção e, assim, comprometer a sua eficácia.


Voltando um pouco atrás, então porque é que temos tanta diferença entre o SARS-COV-2 e outros coronavírus? Crê-se que é devido à alta carga viral no trato respiratório superior e provável transmissão por indivíduos assimptomáticos.

Máscaras
Quanto aos equipamentos de protecção individual, o que está mais “na moda” é a máscara.
Há 5 tipos de máscaras descartáveis a considerar: máscara caseira, máscara cirúrgica, FFP1, FFP2 e FFP3:

Máscara caseira
Um estudo, de 2013, mostra que este tipo de máscara tem cerca de um terço da eficácia das máscaras cirúrgicas e não são adequadas em caso de pandemia viral, excepto se o acesso aos restantes tipos de máscaras for impossível. As típicas toalhas de cozinha apresentam-se como um bom material para este tipo de máscara.

Fig. 3 – Máscara caseira.
Fig. 4 – Toalha/pano de cozinha.

Máscara cirúrgica
Foi criada no final do séc. XIX para impedir a passagem de bactérias existentes na boca e nariz da equipa cirúrgica para o paciente e campo operatório. Segundo a DGS, a finalidade deste produto é a saúde e segurança do doente, independentemente de proteger o profissional (ou
quem a usa).
Tem 3 sub-tipos, consoante a eficiência de filtração bacteriana (e não de vírus!!), a permeabilidade ao ar, a resistência aos salpicos e a carga microbiológica: I, II e IIR, do pior para o melhor desempenho. Essa indicação deve estar explícita na embalagem.

Fig. 5 – Máscara cirúrgica.

Máscaras autofiltrantes ou “respiradores”
Máscaras que se destinam a ser envergadas por uma pessoa com vista à sua protecção. Normalmente apresentam uma válvula (não é obrigatório que assim seja) para facilitar a respiração e são classificadas tendo em consideração a sua eficiência de filtração e valores de fuga (de ar possivelmente contaminado) para o seu interior.
FFP 3 (alta eficiência ≥ 99%) > FFP 2 (média eficiência ≥ 94%) > FFP 1 (baixa eficiência ≥ 80%)

Fig. 6 – Máscara FFP3.
Fig. 7 – Máscara FFP2.
Fig. 8 – Máscara FFP1.

A classificação deve estar estampada na máscara de forma visível e por norma, no sistema Europeu descrito acima, quanto maior a eficácia de filtração, mais cara será a máscara. Aos profissionais de saúde que lidam com vírus e bactérias, são aconselhadas as FFP3. No sistema americano, temos as N95, N99 e N100, considerando a filtração de partículas de tamanho cerca de 3 vezes maior do que o coronavírus e a sua capacidade de filtração será, respectivamente, ≥ 95%, ≥ 99% e ≥ 99,97%.


Resta debruçar-nos sobre as máscaras cirúrgicas, que serão as mais comuns e populares, de momento.


Um estudo, de 1994, publicado no British Dental Journal, mostrou que foram encontrados anticorpos (defesas do organismo com memória) para vírus que afectam o tracto respiratório, em todos os cirurgiões orais do estudo, não havendo diferença entre os que usavam sempre máscar
cirúrgica e os que só “às vezes” ou nunca as usavam.


A capacidade de filtração deste tipo de máscara melhora quanto maior for a partícula! Primeira conclusão: o contacto prolongado, proximidade e tamanho das partículas têm influência.

Sabendo que durante um espirro são libertados aproximadamente 40.000 partículas de 0,5μm – 12μm de tamanho a 100 metros por segundo (360km/h!!!) e que podem atingir cerca de 2,9m em comprimento, crê que a máscara mais adequada será a máscara cirúrgica ou uma FFP2 (ou N95)?


Apesar da resposta pronta cair obviamente para o lado das FFP2 (sistema europeu) ou N95 (sistema americano), a verdade é que vários estudos feitos com profissionais de saúde mostram que não há grandes diferenças de resultados entre elas!


Um estudo canadiano de 2004, feito com 446 enfermeiros mostrou que não houve diferenças significativas entre os que utilizavam máscaras cirúrgicas (tipos II ou IIR) ou respiradores N95 para prevenção do vírus da gripe (de tamanho semelhante ao SARS-COV-2). Será possível?


Outro realizado em 7 centros médicos dos Estados Unidos da América, no princípio de 2019, chegou exactamente às mesmas conclusões.

Fig. 9 – Conclusão do estudo de Radonovich e colaboradores, de 2019.

Outro estudo do mesmo grupo relativamente ao SARS, semelhante ao “nosso” coronavírus, em Toronto, mostrou apenas uma pequena vantagem para as N95 e que houve uma redução de 80% no risco de infecção para enfermeiros que utilizavam máscara (de qualquer das duas) de forma consistente. A ter em conta que são profissionais de saúde, habituados a colocar e usar máscara correctamente.
Segunda conclusão: o risco de infecção reduz-se com máscara cirúrgica (tipos II e IIR) quase tanto como outra com maior capacidade de filtração, desde que se cumpram as regras de utilização.

Certo, tudo muito interessante, mas como seria em nossas casas?
Acontece que há um estudo publicado em 2009, feito na Austrália, durante 2 invernos consecutivos, em que dividiram 145 lares, de famílias com filhos menores, por 3 grupos, aleatoriamente (ao acaso). As máscaras foram atribuídas unicamente aos pais para aferir a passagem de cargas virais dos filhos, que contraíam gripes, constipações ou outras doenças respiratórias virais na comunidade, por exemplo, na escola. A 47 casas foram atribuídas máscaras cirúrgicas, a 46 casas máscaras semelhantes a FFP2 e as restantes 52 casas serviram de grupo de controlo, portanto, não utilizaram máscara.


Terceira conclusão: a redução relativa no risco diário em adquirir infecção respiratória de transmissão comunitária em pessoas que usem máscara consistentemente (FFP2 ou cirúrgica) está entre 60%-80%.

Crê-se, portanto, que a utilização correcta da máscara, com boa adaptação à face, que impeça fugas ou entrada de ar contaminado, é essencial, tal como é a sua capacidade de filtração, bem como o respeito pelas restantes medidas e materiais de protecção e desinfecção.
Então porque é que não há grandes diferenças entre 2 tipos de máscaras?
Talvez porque fazem com que as pessoas levem menos as mãos à cara ou à boca. Talvez porque falem menos e, por isso, libertem menos partículas. Ou talvez pelo factor social, se crie distanciamento por “vergonha”.
Por outro lado, não se sabe o efeito das máscaras em todas as partículas expelidas. Podem atrasá-las ou alterar a sua trajectória, por exemplo.

O que se sabe:

  • máscaras cirúrgicas têm durabilidade de 2 a 4h;
  • devem ser substituídas se houver humidade no seu interior (perdem capacidade de filtração);
  • não devem ser “ajeitadas”, excepto se for feita desinfecção das luvas ou mãos antes e depois de lhe mexer;
  • não devem ser removidas (nem para espirrar!);
  • 78% do público não as coloca correctamente;
  • podem dar falsa sensação de protecção e fazer com que haja descuido do distanciamento social. Não se pode descurar as restantes medidas e equipamentos de protecção;
  • As máscaras podem contribuir para diminuir a transmissão de infecção por parte de pacientes portadores do novo coronavírus, principalmente dos que estejam assimptomáticos.

A Organização Mundial de Saúde recomenda:

  • antes de colocar a máscara, lave as mãos com gel hidro-alcoólico ou água e sabão;
  • cobrir a boca e nariz com a máscara e tenha a certeza que não há espaços entre a face e a
  • máscara (nos limites da máscara);
  • evite tocar na máscara enquanto a usa. Se o fizer, limpe, lave e/ou desinfecte as mãos;
  • para remover a máscara, remova atrás sem tocar na frente. Deite fora imediatamente em
  • contentor fechado. Lave e/ou desinfecte as mãos com gel hidro-alcoólico ou água e sabão.

Em resumo
Temos uma arma barata e acessível contra o coronavírus, presente em todos os lares: detergente e/ou sabão. Até o sabão azul funciona. Use-o. Muito! E ao tomar banho, não se esqueça de esfregar o pescoço e atrás das orelhas.

Fig. 10 – Vários tipos e formas de sabão.

Use máscara! Os estudos demonstram que reduzem o risco de contrair doença viral de transmissão comunitária consideravelmente, se usadas de forma correcta e regular.
Não se esqueça do uso de luvas, que também podem e devem ser lavadas como uma “segunda pele”, até para não contribuir para transporte de vírus na ponta dos dedos. E de óculos, se os tiver. Os olhos também são portas de entrada de vírus!


Para quem preferir uma solução antisséptica de base alcoólica, com a dificuldade em comprar e preços praticados, deixo a receita para 1 litro com eficácia comprovada em testes recentes, se utilizada entre 30 a 40 segundos:

• álcool etílico a 96% (por volume v/v) 833,3ml
• água oxigenada a 3% 41,7ml
• glicerina a 98% 14,5ml
• água destilada ou fervida e arrefecida 110,5ml

Boa quarentena a todos! Fique em casa.
Até breve. Juntos vamos conseguir!
A equipa da Clínica da Penteada.

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